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Matéria publicada em: 08/02/2018

Estudo da PM sugere desmobilização de UPPs 'asfixiadas pelo crime' no RJ

Dados de inteligência da corporação citam Cidade de Deus e unidades no Lins, Jacarezinho e complexos do Alemão e da Penha como zonas de risco.

Por Henrique Coelho, G1 Rio

Caveirão circula pelas ruas da Cidade de Deus; Comunidade é citada como 'vermelha' em estudo sobre vitimização policial (Foto: Reprodução / TV Globo)

Um estudo da Comissão de Análise de Vitimização da Polícia Militar do Rio de Janeiro indicou que uma alternativa para diminuir o número de policiais militares mortos ou feridos no Estado é a “desmobilização” de unidades de Polícia Pacificadora. O foco seria em unidades que “estão asfixiadas pelo crime”, que estariam sofrendo com “total perda de efetividade”. O efetivo seria realocado para batalhões locais.

Uma das mudanças sugeridas no estudo é a transformação de algumas UPPs em “Unidades Estratégicas de Cerco Restrito”, com previsão de ações diárias no acesso a essas comunidades. O termo usado é operações de “asfixia”. O enfrentamento ao tráfico de drogas e armas também é sugerido em rodovias estaduais de acesso à região metropolitana, em outra parte do texto.

O tema foi discutido há uma semana durante um seminário que aconteceu na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Na ocasião, o comandante da PM, Wolney Dias, chegou a afirmar que há um estudo para o fim de 18 das atuais 38 UPPs. No dia seguinte, no entanto, o governador Luiz Fernando Pezão afirmou que essa redução não está planejada.

Dados de inteligência da Polícia Militar indicam a UPP Cidade de Deus e outras nove comunidades como críticas na vitimização policial em 2017, com mais de quatro mortos ou feridos em serviço: Camarista Méier, no Lins; Fallet Fogueteiro e Providência; Jacarezinho e Arará Mandela; São João, em Vila Isabel; Alemão e Vila Cruzeiro, nos complexos do Alemão e da Penha; e Mangueirinha, em Duque de Caxias. Para a Polícia Militar, todas as áreas consideradas “vermelhas” pela PM, pela intensidade e frequência de confrontos armados.

Para identificar as áreas de maior periculosidade, a polícia dividiu as regiões em cores: o “vermelho” foi a cor escolhida para definir as piores áreas. A Cidade de Deus, por exemplo, com UPP instalada desde 2012, viveu dias de tensão após a prisão de um traficante. Três morreram, e a Linha Amarela ficou fechada em vários momentos. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), analisados pelo G1 mostram que a região da Cidade de Deus tem uma morte violenta a cada 4 dias desde 2015.

A comunidade já era apresentada como uma das áreas consideradas “vermelhas” há três anos, quando a Polícia começou a dividir as comunidades de acordo com cores para avaliar a quantidade de confrontos e resistência à polícia. A classificação do local é a mesma desde 2015.

Outras regiões, como o morro São João, Camarista Méier e Complexo do Alemão também apareciam na primeira listagem de áreas de risco em 2015, e seguiram nessa condição. A Rocinha era outra das cinco comunidades a serem classificadas como “vermelhas” no início das análises.

Entre as medidas apresentadas como de valorização policial, estão o aumento da quantidade e qualidade de treinamentos de tiro, abordagem, conduta, patrulha e combate em área restrita. O estudo também sugere a criação da Galeria de Heróis no site da corporação, além da criação de um monumento aos policiais mortos.

Em agosto do ano passado, o secretário de segurança, Roberto Sá, havia prometido reformular as unidades. Na ocasião, prometeu manter a PM em todas as comunidades, mas subordinar as UPPs aos batalhões de cada área. Dentre as mudanças, a realocação de efetivo para a Região Metropolitana. “Todas as UPPs serão mantidas na sua essência. Digo pra cada morador que acreditou, vamos continuar presentes, cumprindo o nosso serviço”, disse Sá há seis meses.

Áreas críticas

As áreas mais críticas para agentes da corporação, segundo analistas da própria PM, são do 7º BPM (São Gonçalo) e 20º BPM (Nova Iguaçu). São Gonçalo não possui unidades, enquanto Duque de Caxias possui a UPP Mangueirinha, uma das últimas a ser fundada, em janeiro de 2014.


Mapa apresentado em conferência mostra região metropolitana do Rio como principal local de mortes de policiais (Foto: Polícia Militar/Divulgação)

De acordo com os dados apresentados em uma conferência, 163 PMs morreram em 2017, sendo 128 de folga e 35 em serviço. O número de casos entre 1995 e 2017 chegou a 3,17 mil mortos. De acordo com dados da Comissão de Análise de Vitimização, foram 11 mortes, em 2017, de policiais de serviço em UPPs. Entre os 784 feridos, 117 eram de Unidades de Polícia Pacificadora.

Especialista vê “padrão assombroso”; PM nega fim de bases


Policiais caminham em direção à comunidade do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio (Foto: Reprodução/ TV Globo)

Nos últimos meses, Jacarezinho e Lins tiveram megaoperações das Forças Armadas em conjunto com as forças de segurança estaduais, principalmente após as morte de policiais civis e militares. As ações tiveram pouco mais de 40 presos, dois mortos e pouca quantidade de munição e drogas apreendidas. Ontem, foi a vez da Cidade de Deus.

Ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente Filho, considera temerária a possível saída de algumas UPPs: “Como é que você vai se posicionar naquela comunidade retirando os policiais? Você pode acabar empoderando os criminosos”, avalia ele, que diz que o problema da vitimização de PMs é um “padrão assombroso para todo o mundo”.

“Isso mostra alguns erros que estão sendo cometidos. A questão da vitimização policial tem várias camadas: o treinamento precisa ser eficiente para a autoproteção do policial. Há, também, a questão de estrutura e uma demanda maior em termos de pacificação, como cercar controle de acesso a algumas dessas comunidades”, afirmou José Vicente.

Em nota, a Polícia Militar afirma que “não há previsão de extinção de nenhuma base de UPP”. Segundo a PM, a proposta de redução das UPPs foi discutida entre os participantes de um congresso, mas não foi incluída na lista das medidas que serão executadas este ano. O documento entregue na última sexta-feira ao governador Pezão inclui 16 medidas para 2018, que podem ser lidas AQUI.

Entre as medidas previstas, estão a blindagem de unidades e viaturas da corporação, com a ajuda da iniciativa privada, e estabelecimento de parâmetros mínimos de segurança para policiais em unidades operacionais, especialmente de UPPS.



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